QUEM PROTEGE AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA EM TEMPOS DE COVID?

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Dr. Gilberto LucenaAdvogado em Paraíso

Com um duplo ar de proibição: a inacessibilidade e a pandemia as pessoas com deficiência se locomovem entendendo que não é muito simples percorrer aos sobressaltos causados pelas características das ruas, precisa também viver com o medo real de uma pessoa de altíssimo risco diante da pandemia.

O isolamento é a realidade de muitos com deficiência por causa da falta de acessibilidade o que, de certa forma, não é um problema social, no entanto, o medo, a ansiedade e o risco de ser reinfectado é que torna difícil tocar a vida de forma “normal” dentro da minha “normalidade”. Como minha síndrome é degenerativa, quanto menos eu movimentar meu corpo, mais rápido ele para e perde os movimentos.

Além da impossibilidade de me manter afastado das pessoas por necessitarem de cuidadores (membros da família para as tarefas de higiene pessoal e alimentação, motorista, fisioterapia, etc). Enfrento obstáculos para adotar medidas básicas de higiene, como lavar as mãos (pias e lavatórios frequentemente são fisicamente inacessíveis ou tenho dificuldade de esfregar as mãos adequadamente).

Cerca de 22% da população (45 milhões) no Brasil têm algum tipo de deficiência, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Sou apenas mais um nessa estatística e que se assombra com a possibilidade de passar novamente por esta experiência terrível de ser acometido pela COVID19. Em razão de minha patologia (Distrofia muscular), tenho o coração e pulmão afetados. Qualquer infecção e febre levam a uma piora da doença, aumentando a fraqueza muscular motora, cardíaca e respiratória.

Apesar da Lei Brasileira de Inclusão (LBI) determinar que PcD tem prioridade no acesso a serviços de saúde, não recebi atendimento prioritário quando fui internado no hospital público de minha cidade sob a responsabilidade do Governo do Estado. Fiquei 03 dias numa enfermaria, sem qualquer adaptação (banheiro, cama, cadeiras de banhos, etc). Em razão disso tinha que tomar banho e as demais necessidades na cama. Nesses 03 dias não recebi sequer uma visita de um médico. Os médicos do plantão sempre estavam sobrecarregados com tanta gente doente. Foi terrível, porque precisamos ficar chamando, pedindo ajuda das pessoas a toda hora, inclusive dos outros doentes com COVID/19.

Nessa minha primeira internação, tanto na saúde pública como na privada (fiquei internado do dia 21 de julho a 01 de agosto de 2020), não havia até aquele momento nenhum um protocolo e/ou atendimento especial para recepcionar um PcD (Pessoa com Deficiência). Até em leito de UTI, temos que nos reinventar e enfrentar desafios, por que esses leitos não foram pensados para uma PcD. Só para uma análise, os 10 dias de internação em leito de UTI, permaneci numa posição só.

Fiquei de barriga para cima. Não é uma posição ideal, porém, não é totalmente prejudicial para o corpo. Nesta posição, as articulações relaxam, o que impede torções ou dores. Os prejuízos, no entanto, podem ser para a coluna, que não fica ereta perfeitamente, Além do mais. Nessa posição não conseguia mexer os braços adequadamente. Sequer conseguia limpar as lágrimas, comer sozinho. Como 10 dias não são dez minutos ou horas, manhã ou tardes, mas são dez dias inteiros com dia e noite e que, uma dobrinha do lençol nas suas costas incomoda e dói e te mostra realmente a força da sua deficiência.

Isso me preocupa, pois na necessidade de definir prioridade na distribuição de leitos de UTI em face da insuficiência de recursos, não sei se estão assegurando que pessoas com deficiência não sejam preteridas com base em sua deficiência. É mais fácil lidar com uma pessoa dita “normal”. É mais barato, inclusive. Como prova disso é as raras campanhas governamentais contra a Covid-19 em relação ao acesso das PcD’s aos protocolos de prevenção, bem como aos serviços especializados, tanto em seu domicilio como nas casas de saúde. Isso deveria ser regra básica no Ministério da Saúde. Mas não é.

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